sábado, 18 de junho de 2022

Proibidão kids




Certa feita fiquei abismado com o fato de que a simples necessidade de demonstrarmos certas coisas, pode revelar a profundidade da bestialidade daquele a quem tentamos demonstrar algo. Veja só, é um fenômeno revelador e curioso, porque não diz respeito somente àquele que nós tentamos algo demonstrar, mas também, a nós que demonstramos, pois, o ato de explicar, por si só parece estar sempre imbuído de alguma dose de caridade. Mostrar as razões de qualquer coisa para alguém, na maioria das vezes é um ato quase tão imediato - ou deveria ser - quanto oferecer alimento a quem descobrirmos estar com fome. A necessidade de explicar algo vem em tamanha velocidade, que dificilmente refletiremos o absurdo de explicar certas coisas. 

Resumirei onde quero chegar em uma simples frase: "no dia em que tivermos de explicar a um soldado experiente, quais as razões da disciplina e da hierarquia na atividade militar, teremos a prova peremptória da completa falência da atividade militar em questão.

E o que diabos tenho de demonstrar? Que não é adequado crianças de menos de dez anos dançarem funk. É inevitável que depois disso, risadas na corda bamba entre o cômico e o desesperador,  caiam dos cantos de meus lábios como lágrimas caindo das esquinas de meus olhos. Devo assinalar que sinto a poesia, talvez na marcha da providência, vindo proteger meu coração das flechas desferidas pelas bestas da perdição do mundo. Mas, não nos percamos. O presente fato de que tenho de explicar porque esse tipo de dança não deve ser dançada por crianças, leva-nos a conclusões aterradoras. 

Há menos de uma década, eu acho, a questão não era se as crianças poderiam ou não dançar funk, mas sim, o que deveríamos fazer com esses depravados odientos que dançam isso? Mas não, do jeito que as coisas estão, logo teremos o proibidão gospel, proibidão para o natal e quem sabe ouviremos o slogan: músicas indecentes para pessoas respeitáveis. Paremos de imaginar e tombemos na realidade. O mal não respeita os degraus da elevação de sua baixeza, ele pula etapas. Não foi preciso existir o proibidão gospel ou o proibidão para o natal para que só depois surgisse algo evidentemente nojento. Os bárbaros animalescos encontraram uma maneira de ir direto para o proibidão kids. 

Depois desse prólogo de filme de terror, desprezível até mesmo ao respeitabilíssimo Zé do Caixão, vou lhes demonstrar os motivos que me fazem realmente crer que alguns gramas a mais de sanidade no cerebelo do corpo social, seria o suficiente para jogarmos na cadeia qualquer um que defenda a ideia de funk para crianças. Como aceitar que crianças façam uma coisa que não sabemos se são passos de uma dança que imitam posições sexuais, ou se são posições sexuais que imitam uma dança? Porque veja só, para que surja uma gravidez de um casal que venha a dançar funk, não é preciso que eles façam sexo, só é preciso que eles estejam dançando funk sem roupas. E nossas crianças estão dançando isso? Estão. 

Mas a pergunta é: como isso é possível? Pois, não estou falando que existem algumas crianças dançando funk na aba das fimbrias da periferia de um lugar periférico. Refiro-me, por exemplo, a uma escola particular de Goiânia que no bailinho de crianças de menos de dez anos, resolveu que não teria problemas se elas dançassem um proibidão. O que de alguma forma me acalenta é que disso tivemos um pequeno escândalo, nesse caso, um tênue sinal de vida da moralidade brasileira que mesmo moribunda, ainda não morreu. Agora o que me amedronta é que desse acontecimento, passaram-se apenas um ano e temo dizer que pelo menos no ensino público esse mesmo caso não provocaria escândalo nenhum.   

Daqueles que a luz do dia defendem o proibidão kids, o argumento mais comum é: "são só crianças, elas não tem malícia, o mal está nos olhos de quem vê". Isso não é apenas um argumento canalha, é a transferência de responsabilidade do crime que estão cometendo. É verdade, as crianças não têm malícia, por isso são vulneráveis e precisam ser protegidas, não expostas a um ritmo pré-coito feito para animar a suruba de traficantes. Pois bem, pensemos sobre o principal. A diretora da escola do funk proibidão kids, disse que as dezenas de professores que estavam no local enquanto meninas e meninos ainda não alfabetizados desciam até o chão, não perceberam a sexualização na música. E eu acredito nela. Na média a população brasileira pensa e comporta-se como pensavam e se comportavam os detentos do Carandiru.



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